O “CURRICULUM VITAE”
Carlos M. Costa
Almeida
O «Curriculum vitae», com aquilo a que se tem chamado a sua «discussão»
(avaliação), constitui, nos nossos concursos como, em boa verdade, nos dos outros
países, uma peça fulcral.
«Curriculum vitae» significa «curso da vida». Tratando-se de
um «curriculum vitae» dum profissional
da medicina, é
óbvio que corresponderá ao
curso da sua
vida profissional; por outras
palavras, àquilo que ele
fez, desse ponto
de vista, até ao
momento em que
o está a
escrever.
Aceite a definição, é evidente que nele não caberão descrições
mais ou menos pormenorizadas do ou dos Serviços onde o autor do «curriculum» trabalhou,
a não ser que esse ou esses Serviços tenham sentido alterações, melhoramentos, incrementos,
da sua responsabilidade pessoal, para além do seu mero trabalho diário e
rotineiro. Essas alterações, esses progressos, por si introduzidos, ou
estimulados, sim, farão com certeza parte do seu «curriculum vitae»; o resto, não. Além disso, poderá ser
lícito em termos curriculares realçar que teve oportunidade de trabalhar num
local e com profissionais que façam de algum modo uma diferença significativa
em relação ao comum dos centros da sua área médica.
As longas e pormenorizadas descrições, de carácter encomiante,
do funcionamento dos Serviços, de todo normais, apenas sugerem falta de factos
curriculares (isto é, do «curriculum vitae», ou seja, da vida profissional do autor,
quer dizer, daquilo que ele realmente fez do ponto de vista profissional,
sentindo por isso necessidade de empolar o local onde trabalha para disso obter
vantagem pessoal). Digo «apenas» porque quero deliberadamente esquecer a
hipótese de o autor do pretenso «curriculum vitae» o utilizar como elemento de
adulação dos elementos do Serviço que fazem parte do júri. Esse aspecto, tão
conhecido de nós todos, está absolutamente fora do contexto deste artigo.
Também não terão cabimento opiniões sobre maneiras de tratar
doentes, sobre técnicas ou tácticas cirúrgicas, ou sobre resultados
terapêuticos, a não ser que o autor tenha criado, ou experimentado, algo de
inovador nalguns desses campos.
As considerações «psico-filosóficas» sobre a Vida e os seus
segredos, sobre a Humanidade em geral e os doentes em particular, sobre o
Sistema Nacional de Saúde ou a medicina privada, etc., são também inteiramente
descabidas.
O «Curriculum vitae» deve ser exclusivamente a descrição do
que o seu autor produziu enquanto profissional, daquilo que mostrou ser capaz
de fazer na fase pré-profissional, e ainda, eventualmente, de actividades
para-médicas que traduzem conhecimentos científicos, interesse e capacidade de
ensinar, de organizar, de criar, de inovar, de fazer. Da avaliação disto tudo,
do que ele conseguiu realizar, o júri poderá ter uma ideia do que ele poderá
fazer no futuro.
A descrição de factos, que terá em si mesma de ser
perfeitamente objectiva, deverá ao mesmo tempo ser feita de maneira que dê uma
ideia do trajecto pessoal do autor, tornando evidentes eventuais dificuldades
que tenha tido que vencer, para além das que são implícitas na sua
actividade. Estes aspectos são
importantes para a apreciação da pessoa cuja vida profissional está a ser
analisada, sem que se admita, claro, que um «curriculum vitae» possa ser
transformado num romance autobiográfico.
Se os factos em si contam, a maneira como o profissional a ser
avaliado os conseguiu realizar também poderá ser importante para se ter uma
ideia das suas capacidades. Será de referir, por exemplo, que teve de trabalhar
ao mesmo tempo que estudava, por dificuldades económicas familiares; que tem,
ou teve, qualquer dificuldade física, ou doença, que lhe tornou o estudo ou
trabalho mais penoso que aos seus pares; que enquanto aluno, ou interno, foi
obrigado, por razões extra-profissionais, a mudar de estabelecimento de ensino,
ou Serviço, mantendo sempre, no entanto, o mesmo bom desempenho; que para fazer
um determinado estágio no estrangeiro teve de concorrer com outros à obtenção
duma bolsa, a qual lhe foi concedida a ele; etc., etc.
Outros factores extra-científicos, ou antes, para-científicos,
importantes para a avaliação do técnico em presença de cujo «curriculum»
científico se está, são, por um lado, o
modo como os dados são apresentados, por outro, a ortografia usada. Erros de ortografia, tal como os de
construção de frases, significam uma preparação básica medíocre, sobre a qual,
a não ter sido corrigida, dificilmente se virá a desenvolver um verdadeiro
grande profissional.
A estrutura dos «curricula vitae» poderá variar, mas, em minha
opinião, há uma base que deverá ser mantida, para mais fácil apreciação
comparativa. Base estrutural essa que continuará a mesma, seja para que
concurso for que ele seja feito. Os factos a valorizar mais é que poderão ser
diferentes, consoante o objectivo do concurso em causa.
Os dados serão distribuídos por capítulos, indexados num
índice, colocado no princípio ou no fim, e que funciona como um sumário para
consulta rápida e global. A maneira como está elaborado diz muito do seu autor.
O «curriculum vitae» deverá começar por um Registo Biográfico, com local e data de
nascimento, e filiação.
Seguir-se-á a Carreira
Escolar, com o trajecto escolar até à Universidade. Nota final no ensino
secundário e de ingresso no ensino superior. Depois, classificação no curso de
Medicina, com menção de eventuais prémios ou distinções recebidos, e resultado
obtido no exame de seriação para acesso ao internato de especialidade.
Em seguida, Internato:
ano comum e formação específica. Onde foram essas duas parte realizadas, datas,
classificações, quem era o Director de Serviço e o Orientador de Formação.
Estágios feitos
fora do Serviço, eventualmente no estrangeiro. É importante dizer como foram
conseguidos: à própria custa, com a simpatia do Director (ou do Orientador,
sendo interno), ou concorrendo a uma bolsa de estudo e ganhando-a. E quais os
objectivos, enquadrando-os dentro do plano individual de preparação ou de
actividade. Bem como quais foram as suas consequências, para o próprio e para o Serviço onde está inserido.
Actividade Médica Hospitalar:
funções desempenhadas (incluindo a de orientador de formação), para além do
trabalho de rotina. Eventualmente criação, ou desenvolvimento, de alguma
actividade hospitalar. Possibilidade de colaborar nalgum trabalho de ponta, ou de
o criar. Funções de chefia ou de direcção de carácter clínico.
Actividade Médica
Extra-hospitalar eventualmente existente: funções desempenhadas,
experiência conseguida.
Outra Actividade
Hospitalar: cargos desempenhados, funções de direcção ou de chefia não
clínicas; cursos de gestão hospitalar, de controlo de qualidade ou de revisão
de processos; organização de reuniões científicas ou de ensino pós-graduado;
ter sido escolhido para integrar comissões ou grupos de trabalho com um fim
determinado, no Serviço, no hospital ou a nível nacional, ou para melhorar ou
iniciar algo no seu local de trabalho; etc.
Alguma Actividade não médica
eventualmente relevante para dar uma ideia do profissional em causa como pessoa.
Concursos da carreira
hospitalar: para o grau de consultor, para provimento como graduado sénior.
Local e data; classificação, absoluta e relativa, com indicação do número de
concorrentes.
Actividade Docente,
se a houver: Faculdade de Medicina, Escola de Enfermagem, Escola de Técnicos de
Saúde, etc. Funções desempenhadas nessa actividade, e sua duração. O ensino de internos
não é sequer de referir, uma vez que faz parte da actividade normal dum especialista
hospitalar. Títulos da Carreira Académica, se for o caso.
Actividade de
Investigação, quando existe: clínica ou laboratorial, com indicação dos
objectivos, colaboradores, meios, locais e datas. Referir se foi admitido num
programa doutoral, e se está a desenvolver um trabalho de investigação nesse
âmbito, e qual o tema.
Conferências proferidas,
onde e quando. Trabalhos apresentados,
escritos e orais, com locais, datas, e indicação dos autores, tornando bem
clara a posição relativa entre eles do autor do «curriculum» (um trabalho em
que se é autor único, ou primeiro autor entre dois ou três, não será com
certeza de considerar como um trabalho do Serviço com dez autores...). Poder-se-á
fazer um pequeno resumo de cada um, ou dos que se considerarem mais importantes
ou originais.
Cursos em que
participou, como docente ou discente, bem identificados em relação a quem os
levou a cabo, onde e quando, e com relevo para os que tiveram avaliação final,
com indicação da sua, se for o caso.
Reuniões Científicas
em que tomou parte activa, apresentando trabalhos, participando em mesas
redondas, fazendo palestras. Reuniões científicas que organizou ou ajudou a
organizar. Reuniões científicas a que assistiu, com indicação do título, local
e data.
Actividade Para-médica
relevante, como lugares desempenhados na Ordem dos Médicos, ou em outras
associações médicas, científicas ou sindicais.
Sociedades Científicas a
que pertence.
Finalmente, no caso de se tratar duma especialidade em que haja
técnicas a executar, cirúrgicas ou outras, uma listagem quantitativa parece-me importante.
Isto é com certeza discutível, mas quando estão publicados currículos de especialidade
chamados mínimos, com carácter quantitativo quase todos, creio que será de apresentar
essa listagem. Ela, ao fim e ao cabo, sempre dá alguma ideia da experiência técnica
do seu autor. Devo, no entanto, dizer que tal listagem não é habitual noutros países,
onde é feita apenas para uso individual ou para orientação interna de cada Serviço,
ou ainda para demonstrar experiência numa determinada área específica.
Realmente, se se aceita que um Serviço funciona bem e é idóneo,
todos dentro dele deverão ter experiência suficiente na respectiva especialidade
e consoante o seu grau de diferenciação. O problema é que no nosso País, cheio
de originalidades, as coisas não se passam sempre assim... Por exemplo, foram
publicados pelo Ministério da Saúde currículos de especialidade mínimos
elaborados pela Ordem dos Médicos,
através dos seus colégios; portanto, se um interno acabar o seu internato de
formação específica e apresentar o «curriculum vitae» sem listagem das intervenções
em que tomou parte, terá de se acreditar que cumpriu nesse campo o estabelecido
por lei e pela Ordem dos Médicos. Mas, ao mesmo tempo, admite-se que muitas
vezes não é possível cumprir esses currículos em todos os seus pormenores em Serviços
considerados idóneos. Logo, admite-se «a priori» que um interno pode não o ter
cumprido integralmente… e haverá, por isso, que avaliar possíveis implicações
desse facto.
Como documentos finais, apenas se deverão incluir declarações escritas
do Director de Serviço, e eventualmente do Orientar de Formação ou doutros profissionais
que o queiram fazer, ou outros documentos abonatórios. Nunca o diploma de curso,
ou de inscrição na Ordem dos Médicos, ou a declaração do Hospital em como é assistente
hospitalar, ou assistente graduado, ou sénior, etc. Isso são redundâncias que apenas
servem para fazer volume.
E um «curriculum vitae» não se deve avaliar pelo número de páginas,
pelo peso, pela organização do Serviço onde o autor trabalha (se isso não for
da sua responsabilidade), ou pelas suas opiniões sobre técnicas cirúrgicas inventadas
por outros, ou sobre a saúde em Portugal. Deve-se avaliar estritamente pelo que
o seu autor fez. E pela maneira clara, límpida, lógica, inteligente e objectiva
como o expuser.
Carlos
Costa Almeida
Director de Serviço de
Cirurgia do CHUC - Hospital Geral (Covões), Professor da Faculdade de Medicina de
Coimbra.
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