22.5.18


ANTÓNIO ARNAUT

Habituei-me a ouvir o seu nome desde o começo da minha carreira como especialista, desde o início do Serviço Nacional de Saúde e ao longo dos anos que ele tem. Mas uma coisa é ouvir falar do ministro que criou as bases para revolucionar a assistência médica no país, ou do político defensor das suas causas e do que na sua óptica considerava justo e mais adequado à sociedade que ele procurava moldar, ou do advogado eloquente, ou do poeta que ele era, outra foi conhecê-lo pessoalmente. Conversar com ele, ser comensal à mesma mesa, trocarmos ideias, sobre grandes e pequenas coisas, ao longo de viagens em conjunto, participar em debates em que ele também participava, ter a honra de o ver apresentar um livro escrito por mim, sobre, naturalmente, a Saúde, o Serviço Nacional de Saúde, as Carreiras Médicas, um assunto que desde cedo, e acidentalmente, o tomou na sua vida política activa e que, mesmo depois dela, nunca mais abandonou.

Foi ao conviver com ele, ao tê-lo como amigo, que pude testemunhar os seus modos afáveis, mesmo para aqueles com quem não concordava, mas mantendo a segurança das suas ideias, sem fazer cedências, nem sequer de circunstância, àquilo em que acreditava e por que se batia com denodo e persistência. A sua simplicidade de modos e de estar, mas que prendia todos os que com ele falavam ou apenas o ouviam. O seu espírito de humor arguto, a atenção que prestava a tudo o que o rodeava. A sua confiança no que sabia, sem deixar de aprender e sem perder a capacidade de se surpreender e entusiasmar com o que de novo lhe aparecia. A sua vontade de melhorar constantemente. A sua alegria de viver e de ter vivido, contagiante.

Foi um privilégio conhecê-lo. Para além da obra a que deu origem, para além daquilo que neste pais representou, para além daquilo que realizou. É, sem dúvida, daquelas pessoas que gostaríamos sempre de encontrar outra vez.

Carlos Costa Almeida
Presidente da Associação Portuguesa dos Médicos de Carreira Hospitalar